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sábado, 5 de maio de 2018

6º DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR - ANO B


06 de maio de 2018

Leituras

     Atos 10,25.27.34.44-48. Deus não faz distinção entre as pessoas.
     Salmo 97/98,1-4. Cantai ao Senhor Deus um canto novo.
     1João 4,7-10. Quem não ama não chegou a conhecer a Deus.
     João 15,9-17. Permanecei no meu amor.


“AMAI-VOS UNS AOS OUTROS, ASSIM COMO EU VOS AMEI”


1- PONTO DE PARTIDA

            Hoje é o domingo do mandamento novo. Este é o sexto domingo da Páscoa, o domingo que antecede a festa da Ascensão do Senhor, momento em que nos aproximamos da festa de Pentecostes, que concluirá o Tempo Pascal, celebrado desde o domingo da ressurreição.

Celebramos neste domingo a Páscoa de Jesus que anuncia um mandamento novo e se manifesta em todas as pessoas e grupos que se deixam conduzir pelo Espírito da verdade e continuam a missão de Jesus.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

            Primeira leitura – Atos 10,25-27.34-35.44-48. Cornélio pertencia ao povo pagão, e o povo judeu era proibido de se misturar com os pagãos, considerados impuros. O texto revela que essas barreiras culturais são rompidas a partir do momento em que a comunidade cristã faz a experiência da ressurreição do Senhor. Vamos acolher o que o Senhor nos propõe por meio desta leitura.

Lucas depois de narrar a conversão do Apóstolo Paulo, destinado à missão entre os povos pagãos, aponta um fato novo: a abertura de Pedro para os pagãos, ao ver que o dom do Espírito Santo se difundia também sobre estes. Com efeito, Atos 10,9-23 relata a visão de Pedro em Jope e sua ida a Cesaréia com alguns “irmãos” para a casa de Cornélio. Aconteceu a ação conjunta do humano e do divino: o Espírito Santo interfere na vida de ambos, os quais são importantes para a execução do plano de Deus. É a Igreja que, conduzida ao Espírito Santo, percorre o caminho de Jope até Cesaréia (50 km), a fim de constatar a obra divina. Neste contexto dá-se o maravilhoso encontro Pedro-Cornélio, cena que comprova a vocação e atuação de Paulo: evangelizar os pagãos. Impressiona em Cornélio o desejo de salvação. É todo o paganismo que deseja pela mensagem da salvação. Cornélio aguardava, cercado de muitas pessoas – amigos e parentes – como ele tementes a Deus e à procura da verdade. Sabe-se que no meio do paganismo havia gente sincera e de ótima espiritualidade, preparada para o Evangelho, mais talvez do que o judaísmo atrasado e teimoso. A esse respeito disse Jesus: “Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé” (Mateus 8,10b).
            Pedro, não aceitando a insistência do centurião Cornélio, aponta para o exemplo que a Igreja deverá seguir: voltar sempre ao gesto humilde e sem pretensões de Pedro. O culto à pessoa e às honras facilmente encobre o caminho que Jesus trilhou – o da cruz, o da humilhação, o da “Kenose”, isto é, do esvaziamento (cf. Filipenses 2,5-11).

            Pedro, esclarece por visão, falando ao grupo, assegura que perante Deus nada é impuro. Cornélio e os seus estão de ouvidos atentos às palavras de Pedro, que assim falou: “Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas, mas em toda a nação lhe é agradável aquele O temer e fizer o que é justo” (versículos 34s). Aqui está o anúncio da salvação, perante um auditório não-israelita; é uma pregação missionária diferente dos anteriores (a judeus), onde se omitem os argumentos bíblicos embora não faltem recordações do Primeiro Testamento. A estrutura literária é pobre, por Pedro não saber fluentemente o grego e Lucas, dando importância à narrativa, não quer corrigir. O conteúdo essencial é a atividade salvadora de Jesus de Nazaré e a confirmação de sua missão por obras, em especial pela ressurreição. Os apóstolos são enviados do mesmo Jesus e devem apontar o caminho da salvação pela ligação intima com Cristo pela fé.

            “Deus não faz distinção de pessoas” (versículo 34) é uma referência a 1Samuel 16,7, texto que se refere à eleição de Davi; “o homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração”. É uma convicção que Pedro adquiriu agora, graças à visão de Jope (10,9-16), ilustrada pelo caso-Cornélio. Na teoria ele admitia que em Deus não há distinção de pessoas (cf. 2,38; 3,26; Isaias 2,2ss; 49,1-6; Joel 2,28; Amós 9,12; Miquéias 4,1). Contudo, no contexto, Pedro, como todo bom judeu, não conseguiu disfarçar totalmente de um favoritismo por Israel. Na história da salvação, quando Deus a oferece, não adota critérios humanos: para Ele não valem a posição social, a descendência, a raça, o povo, a diversidade de religião. O que vale é o temor de Deus e a prática da justiça.

            As palavras de Pedro foram confirmadas pelo testemunho do Espírito Santo (versículos 44-48), o qual enquanto Pedro falava, foi derramado também sobre os pagãos. Na história de Cornélio se verifica o cumprimento do plano divino: o encontro de Pedro com o centurião de Cesaréia marca a importância do novo rumo que a obra da salvação assume. Como em Pentecostes, quando o Senhor ressuscitado, para justificar o início da obra salvadora da Igreja, se manifestou na vinda do Espírito Santo e no dom das línguas, - agora também se verifica na casa de Cornélio, em Cesaréia, um novo Pentecostes, como sinal de uma nova etapa: o início da evangelização dos pagãos. É o Pentecostes dos pagãos.

            Em Cesaréia, como em Jerusalém, homens – amigos, familiares, servos de Cornélio – são arrebatados pelo Espírito Santo e glorificam a Deus. Ainda não são batizados, apenas foram cativados pela mensagem salvadora proclamada por Pedro. São sinceros, abertos e dispostos. Aqui está o valor que a Palavra de Deus possui para a salvação! A Palavra é sumamente eficaz se é dirigida por quem tem fé e se é acolhida por quem é disponível e aberto. Tudo é obra do Espírito Santo. Será que a nossa pregação favorece a vinda do Espírito Santo sobre os ouvintes? O Pentecostes de Cesaréia é um sinal de que a Igreja e Pedro estão certos, quando se dirigem à casa de tantos outros “Cornélios”. Os companheiros de Pedro, judeu-cristãos, puderam testemunhar admirados que o dom do Espírito Santo se difundia também sobre os pagãos, sem que passassem pela Lei de Moisés.

            Pedro o chefe dos apóstolos reconheceu o sinal do Espírito Santo e, aos poucos, foi se libertando da mesquinhez da mentalidade judaica. A salvação é para todos. Se Deus concedeu o Batismo no Espírito Santo, como pode a Igreja negar o batismo com água a estes pagãos? Podemos notar uma pergunta igual do etíope a Filipe (Atos 8,36). E ordenou que todos fossem batizados “em nome de Jesus Cristo”. Os apóstolos em geral não batizavam. Delegam os outros (cf. 1Coríntios 1,14-17). O batismo “em nome de Jesus Cristo” é expressão que indica o Batismo cristão com fórmula Trinitária (cf. Didaqué, 8,1-3). É o único caso em que o Espírito Santo é derramado antes do batismo. Deus quer convencer de que não é preciso passar pelo judaísmo para pertencer à Igreja e receber o Espírito Santo. Se Pedro manda que todos sejam batizados, após receberem o Espírito Santo, é porque os quer agregar à comunidade cristã. Pedro “ficou com eles alguns dias” (versículo 48) é símbolo de que a Igreja foi ao encontro dos pagãos.

            Portanto, Pedro derrubou a muro de separação que, em cada cidade do Oriente, levantava-se entre a comunidade judaica e os pagãos.

Mas nós cristãos do século XXI não paramos de reconstruir este muro cada vez que esquecemos de viver nosso Pentecostes e estabelecemos proibições ou leis para defendermos direitos ou uma filosofia superada. Levantamos muros do pré-conceito contra aqueles que pensam diferente em questões políticas, sociais, financeiras e religiosas. É comum também esse enfrentamento dos tradicionalistas contra uma Igreja que procura inculturar a fé e praticar uma cultura do encontro.

            Hoje, novamente, foi levantado o muro, em cada cidade, entre os cristãos e a imensa “massa pagã” moderna. Onde está Pedro para encontrar os indiferentes de dentro e de fora, para partilhar a sede de Deus e a generosidade da investigação em muitos meios descrentes, para reensinar o diálogo, para fazer-se ouvir (escutando-as) em todas as culturas e em todas as mentalidades, para, em seguida, relativizar valores próprios e válidos, mas sem significação decisiva? Porque não podemos exigir do outro que se converta a ordem de seus valores, senão depois de termos feito nossa própria conversão.

            Como nós cristãos vemos grupos da nossa Igreja e outros grupos que não pertencem à nossa Igreja lutarem por terra, justiça e pão e paz? Será que na maioria das vezes não o vemos com preconceito, fora da lei e querem tomar o que temos?

Salmo responsorial – Salmo 97/98,1-4. É um hino escatológico, inspirado no fim do livro do profeta Isaias e muito próximo do Salmo 96/95. “Com trombetas e o som da corneta aclamai o rei, o Senhor!”. Se referem aos cantos do Reino. Estes toques, que acompanhavam em Israel a vinda dos reis (2Samuel 15,10; 1Reis 1,34), acompanham a entronização do rei, o Senhor (Salmo 47,6) para quem eles haviam ressoado no monte Sinai (Êxodo 19,16) .

O rosto de Deus deste Salmo é muito parecido com o dos salmos 95/96 e 96/97. Destacam-se, contudo, sete ações de Deus. Juntas, dão uma visão ampla de Deus experimentado neste Salmo: ele fez maravilhas, sua direita e seu braço santo lhe deram vitória, fez conhecer sua vitória, revelou sua justiça, lembrou-se de seu amor e fidelidade, vem para governar e governará. Os versículos da liturgia de hoje destacam cindo dessas ações de Deus. A primeira “fez maravilhas” é a porta de entrada: estamos diante do Deus libertador, o mesmo libertador dos tempos passados (Êxodo). A expressão “amor e fidelidade” (versículo 3a) recorda que esse Deus é o parceiro de Israel na Aliança. Mas é também o aliado de todos os povos e de todo o universo em vista da justiça e da retidão. É um Deus ligado à história e comprometido com a justiça. Seu governo fará surgir o Reino.

No Novo Testamento, Jesus se apresentou anunciando a proximidade do Reino (Marcos 1,15; Mateus 4,17). Para Mateus, o Reino vai acontecendo à medida que for implantada uma nova justiça, superior à dos doutores da Lei e fariseus (1,15; 5,20; 6,33). Todos os evangelhos gostam de apresentar Jesus como Messias, o Ungido do Pai para a implantação do Reino, que fez surgir nova sociedade e nova história.

            Bendigamos ao Senhor nosso Deus, que estendeu a salvação a todas as nações não fazendo distinção de povos nações e culturas.

Segunda leitura – 1João 4,7-10. No texto de hoje o apóstolo João, bruscamente, do tema da fé, volta à tecla do preceito universal do amor o ágape (1João 3,11.23; 2,15), com o seu costumeiro apelo, carregado de afeto: “Filhinhos”! Assunto central desta seção é a preferência, que não é uma obrigação arbitrária, mas uma exigência da natureza, porque Deus é amor (1João 4,16). O amor é uma participação da vida de Deus, é uma realidade que procede dele, é “ser de Deus” (1João 5,19). O amor vem a ser o critério de como distinguir O amor é uma participação da vida de Deus, é uma realidade que procede dele, é “ser os bons dos maus, os de Deus e os do mundo: quem está voltado para o materialismo odeia a caridade, justiça e misericórdia porque não tem o coração livre , quem está voltado para Deus ama o próximo.

            O amor autêntico tem sua origem em Deus como a sua fonte: quem ama irrestritamente, nasceu de Deus (versículo 7; 2,29; 5,1), é filho de Deus, está animado de sua graça (1João 3,9). O amor fraterno é efeito de nosso novo nascimento sobrenatural, isto é, o Bbatismo. Fazendo-nos participantes de sua vida e natureza, Deus fez-nos também participantes de sua caridade. O amor mútuo não surge por conveniência moral ou atitude de perfeição ideal. É antes um movimento de vida que resulta da nova natureza, a divina (1João 5,19; 4,4; 4,2s.6; 3,10). O amor é fruto do germe divino recebido no batismo. Em Romanos 5,5, Paulo afirma que é o Espírito Santo quem ama dentro de nós. Entretanto o apóstolo João esclarece: o próprio cristão é que ama a si mesmo, em virtude de sua filiação divina, com a qual pode amar definitivamente. A caridade verifica ao cristão a possibilidade de entrar em comunhão com Deus e conhecê-Lo – conhecimento que vai ligado com o amor fraterno. Quem ama, conhece a Deus, revela Deus, é de Deus e está em comunhão com Ele. Amor e conhecimento crescem lado a lado e se complementam (1João 2,3-11). Para conhecer a Deus e permanecer Nele é preciso amá-Lo. “Conhecer” na Bíblia é possuir aquilo que se conhece, é estar em comunhão com Ele. Os três atos são: nascer, conhecer e amar, estão intimamente ligados.

            O conhecimento de Deus em João não é apenas raciocínio; pressupõe uma relação íntima e pessoal com Deus, proveniente de experiência viva e amorosa. Só quem ama pode conhecer a realidade íntima das pessoas e coisas; quem não ama, não chega a isto. Só quem ouve a Palavra e a põe em prática pode afirmar que conhece a Deus. Tal conhecimento se torna perfeito pela obediência e fidelidade (Oséias 4,6; 6,6). Sem caridade fraterna não há conhecimento pleno de Deus, porque Deus é amor. Esta é a melhor e a mais completa definição de Deus e o ponto alto da Revelação.

            As Bem-Aventuranças (sermão da montanha) publica o amor do Pai, generoso até com os pecadores e inimigos (Mateus 5,43-48; Lucas 15,7-10; Mateus 9,13). A vida de Cristo é vida de amor, bondade e paciência, dando a vida em resgate dos que ama: é o auge do amor (Romanos 5,8; 8,32; 8,39). O amor para João não é apenas um distintivo ou um símbolo, mas é a própria natureza divina. Dizendo-se que Deus é amor, é tudo. O amor não é só uma das atividades de Deus. Toda a sua atividade é amor, tudo o que Ele faz é por amor. O Primeiro Testamento é uma história do amor divino: criação, revelação, aliança, redenção, proveniência, misericórdia, paciência (Gênesis 1,28-30; Êxodo 33,18s; Oséias 11, Jeremias 3,12; Salmo 135; Salmo 144,8).

            Contudo, é no Novo Testamento que o amor se revelou mais plenamente nos mistérios da Encarnação (João 3,16), da Redenção e da Graça, quando o amor da Santíssima Trindade é irradiado sobre todas as pessoas. O amor do cristão, em conseqüência, é participação do amor de Deus. Então podemos concluir que o Cristianismo é a religião do amor. O amor a Deus e ao próximo são da mesma natureza, porque a essência  de Deus é amor – revelação suprema do Novo Testamento. Cristianismo é mais que religião, mas sim revelação. Re em latim não é religar de novo, mas ligar com um sentido novo.

            Nos versículos de 9 a 10, aponta-se a Encarnação como revelação e manifestação surpreendente do amor divino, quando este se tornou evidente e palpável na vinda do Filho Unigênito, Único e bem amado para salvar-nos. É o texto de João que melhor expressa a epifania (manifestação) da caridade. Para João, a Encarnação é um fato que já se realizou, porém, se perpetua, é de permanente atualidade (João 14,23). A Encarnação para o Pai é missão, delegação, envio. O Enviado possui missão especial: falar e agir em nome do Pai, representá-Lo junto às pessoas. Portanto, é o Pai que se revela amor; não mandou qualquer um, mas o seu próprio Filho, Unigênito, muito amado. Isto prova o quanto Deus nos ama, pois mão duvidou em sacrificá-Lo por nós. Se O mandou a este mundo, é para que os seus filhos e filhas pudessem unir-se a Ele (João 1,4; 5,26; 1João 1,2), ter a vida da graça e da glória. Os três grandes mistérios da Nova Aliança – encarnação, redenção, graça – resumem o Evangelho. Paulo e João os entendem como concebidos e realizados pelo infinito amor de Deus.

O versículo 10 ostenta a maravilha do amor cristão: não fomos nós que o amamos. Ele nos amou primeiro, nos enviando seu Filho para perdoar nossos pecados. Nosso amor foi apenas uma resposta a quem nos amou desde sempre. O amor de Deus se manifestou misericordioso, desinteressado, gratuito, generoso. Não nos amou a título de reciprocidade, mas espontaneamente, porque sua natureza é amor. Se Ele põe à morte até seu Filho amado é porque deseja atrair a si os que querem se salvar. Nos Odes de Salomão (século II) há a seguinte reflexão: “Não teria sabido amar o Senhor, se Ele não me tivesse amado primeiro” (3,3).

Evangelho – João 15,9-17. Este trecho da liturgia de hoje é tirado do segundo discurso após a Ceia e serve de transição entre a parábola da vinha (João 15,1-8) e a declaração da amizade feita por Jesus para aqueles que, até então, eram apenas seus “discípulos” (João 15,14-17). O que significa que o tema central desta narrativa é a permanente união dos discípulos com Jesus (“permanecer” volta três vezes nos versículos 9 e 10) como meio de salvaguardá-la.

            O raciocínio de Cristo é claro: o Pai amou o Filho que permaneceu neste amor guardando seu mandamento. Mas Cristo amou as pessoas com este mesmo amor do Pai de que desfrutava e no qual os cristãos por sua vez, podem permanecer guardando o mandamento de seu Mestre.

            Portanto Cristo insiste sobre a ligação que se estabelece entre o amor e a obediência. Enquanto não reconhecer a união amorosa das vontades, o amor é imperfeito. Somente a mútua obediência é o critério de um amor que se tornou adulto. O amor é, ao mesmo tempo, a mais profunda atividade espiritual, pois realiza a comunhão espiritual e a mais fundamental partilha no cerne mesmo da alteridade. O amor realiza ainda outra maravilha: aquele que ama transforma-se naquele que ele ama. Neste sentido, Cristo pode dizer: “permanecei em meu amor como eu permaneço no amor do Pai” (versículos 9-10).

            Enfim, o amor é solidário com a alegria (versículo 11), porque não suporta nenhuma frustração. Resiste à separação, vence todos os obstáculos, mas nada pode contra aqueles que o reivindicam como um direito, só que querem obtê-lo trapaceando com o que são ou confundindo os gestos do amor com o próprio amor. O amor é, portanto, de alegria quando nasce da liberdade total.

            As idéias concentram-se em volta do versículo 11, sobre a alegria completa. Pois a união de Jesus e os discípulos tem como resultado ser ouvido pelo Pai já que Ele é glorificado pelo fruto desta união: fruto que é a caridade conforme o amor que o Pai manifestou no Filho, e que é o conteúdo da “Palavra” na qual os discípulos devem “permanecer”.

            O núcleo central da unidade é, portanto, a comunicação da verdadeira alegria, que é a conseqüência da observância da Palavra (mandamento) do Senhor, ou seja, do amor fraterno.

            Enquanto os versículos 7-8 relacionam o “permanecer em Cristo” com a importância da oração para a glória do Pai, os versículos de 9-10 explicam o que significa concretamente este “permanecer”: é o permanecer no amor. Jesus começa pela fonte: o Pai. Ele amou primeiro (cf. 1João 4,10). Cristo, Palavra do Pai, amou também: a todos nós. E somos convocados para ficarmos no seu amor. Amor de Cristo: isto é, que vem do Cristo, através de sua Palavra, seu mandamento. Como Jesus ficou no amor do Pai, guardando sua Palavra, assim, o cristão deve ficar no amor de Cristo, guardando sua Palavra. Aparece, aqui, que “amor” em João não é uma coisa sentimental, mas a mesma coisa que Paulo chamaria de “obediência” (Filipenses 2,6-12). Obediência no sentido de estar à escuta, estar atento, estar conectado, antena ligada. É união de vida, não uma sensação sentimental, mas um dispor nossa mente e atividade para o plano do Pai. É entregar sua vida. Nisto está a alegria, a “realização” de Jesus, e Ele nos ensina este segredo para que a nossa alegria seja completa: esta é a idéia central do texto da celebração deste 6º Domingo da Páscoa. Aqui, devemos recordar o começo do discurso sobre a videira: a Palavra de Cristo nos purifica, isto é, nos poda e nos torna fecundos (João 15,2-3). É a obediência à mensagem de Cristo que nos permite uma verdadeira “realização”, nos dá uma personalidade definida, faz com que sejamos alguém na vida.
           
 A nossa identidade é sermos aqueles que pertencem à caridade, feita conforme o espírito de Cristo. Buscar realização e contentamento numa outra direção é contrário à nossa identidade. E trata-se de uma caridade que não nos pertence. Muitas pessoas enganam-se neste ponto. Festejam à vontade, baladas, gastam o supérfluo, e depois fazem caridade dando as sobras da mesa e os trocadinhos do bolso para a “negrada, para essa gente” como dizem por ai... Exploram seus empregados e depois fazem caridade aos filhos dos mesmos (que têm tão lindos olhos cheios de agradecimento...)  Isto não é o que Cristo nos diz. Ele quer que a nossa caridade permaneça fiel à sua Palavra, que é a de Deus. A caridade não é uma mera fantasia, mas uma obediência a um preceito. Não somos nós que inventamos. Nos colocamos a serviço do apelo que vem a nós, muitas vezes, num modo e numa aparência que não nos agrada nada.

            Depois da frase central do versículo 11, o tema é aprofundado na ordem contrária. O versículo 12 deixa claro agora, o “permanecer no amor de Cristo” com o sendo o amor mútuo conforme o modelo do amor de Cristo. E este modelo é claro: é a doação da vida pelos “amigos” (ou por quem se ama) versículo 13. Como já dissemos, porém, amor e amizade não é coisa sentimental. É união da vontade: fazer o que o Senhor manda, guardar sua Palavra. Isto faz parte da lógica do amor. Se o mandamento de Jesus é o amor, quem não o observar não participa do Seu amor.

            Agora a idéia de que os discípulos são amigos, significa que são “gente de casa”. Eles sabem o que o Senhor faz, participam na realização de sua vida. Este saber recebe aqui a categoria de revelação. O que Jesus nos ensina, vem do Pai. Traduzindo em termos existenciais: o mandamento do amor não é opcional, mas a expressão do Absoluto da nossa existência.  A iniciativa vem de Deus, através de Jesus Cristo. Ninguém se constitui apóstolo a si mesmo. Aliás, não seria possível, pois a Palavra de Deus, que trazemos “como em vasos de argila”, nos transcende. Atraídos pelo amor convidativo de Cristo, o cristão se coloca a serviço desta iniciativa divina.
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3- FUNÇÃO NA LITURGIA

Como no domingo anterior, também neste 6º Domingo da Páscoa a relação entre a segunda leitura e o Evangelho é evidente. O cristão permanece no amor que vem de Deus (pois Deus é amor, 1João 4,8), e que se manifestou em Jesus Cristo. Nesta forma de amor concreto, o cristão pode se dirigir a Deus com confiança: não lhe faltará nada que for preciso para viver esta união vital. Sua vida será uma glorificação (honra e manifestação) de Deus mesmo. E esta será a sua alegria.

A liturgia deverá ser conduzida de tal modo, que sensibilize a assembléia para o que se pode chamar a existência da Páscoa do cristão. É uma existência diferente da natural, carnal. É unida com a do Ressuscitado. Seu critério não é a satisfação dos desejos ou projetos imediatos da vida natural como pregam as seitas, mas a plena alegria de permanecer no Deus-Amor e de revelá-Lo pela caridade vivida em ações.

4- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Como lembramos no início, em nosso cotidiano usamos muitas e freqüentes expressões com as palavras “amor/amar”, quase sempre relacionada a algo prazeroso, embora, às vezes, destituído de sentido.

            Bastante diferente é a concepção de amor/amar proposta por Cristo: “Como meu Pai me amou, assim também vos amei. Permanecei no meu amor”. Tal concepção é retomada por São João em sua primeira carta: “Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus”.
            Na Eucaristia, alimentamo-nos do amor de Deus; ela é a fonte da qual nos fortalecemos para permanecer no amor de Cristo, atitude, ás vezes, tão difícil, em meio às tribulações do dia-a-dia.

            Esse verdadeiro amor vindo do Pai pelo Filho e confirmado no Espírito Santo, é amor doação, amor entrega. Amor que dá sentido ao que somos, ao que fazemos, à realidade em que estamos inseridos. Ele está centrado na relação com Deus e com o próximo e não confinado dentro de nós mesmos. Na concepção divina, o amor não se reduz ao que nos é agradável. Certamente, também é isso, mas não apenas isso. O exemplo de Cristo é bastante claro. Ao entregar-se por nós na cruz, Ele manifestou a radicalidade do amor que se fez oblação absoluta, o que só foi possível porque Jesus compreendeu a grandeza do amor do Pai por Ele. Muitas vezes, fraquejamos na vivência do amor cristão porque “esquecemos” que o amor de nosso Deus, fiel e justo, é infinito.

            Estamos nós, de fato, cumprindo o indicado por São João: “Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus”? O amor que expressamos aos familiares, aos amigos, aos colegas de trabalho, às tantas pessoas que entram e saem diariamente de nossa vida, contém a dimensão do amor que vem de Deus ou é apenas um sentimento, uma sensação humana? Procuramos ao celebrar a eucaristia, estar bem com os irmãos e irmãs ou somos incoerentes e deixamos tal dimensão de lado, avaliando somente o amor a Deus (conforme nosso entendimento humano)? Alguém já disse que a cruz é um dos símbolos do amor cristão, porque traça, na vertical, a ligação com o Pai e, na horizontal, a ligação com os irmãos.

            Cristo sentia-se infinitamente amado pelo Pai, mesmo nos momentos mais duros, pois esse amor dava sentido também ao sofrimento. Precisamos deixar pulsar em nosso coração o legítimo amor que vem do Pai e que a tudo dá sentido, só assim nos sentiremos como Jesus, infinita e permanentemente amados do Pai, e podemos ser, no mundo, sacramento desse amor. Só assim produziremos e distribuiremos bons frutos, missão para a qual fomos chamados e designados.

            Não somos “filhos de Deus” porque um dia fomos batizados; mas sim porque um dia optamos, dia-a-dia, a acolher essa vida que Ele nos oferece, porque vivemos em comunhão com Ele e porque damos testemunho desse Deus que é amor através dos nossos gestos.

            O amor de Deus, o amor tão humano de Deus, é para nós termômetro do amor. Quem é de Deus, ama. Quem nasceu de Deus, ama. Quem “conhece” a Deus, ama. Ama a quem? O texto da leitura de hoje é muito claro: ama o próximo. “Amemo-nos uns aos outros” (1João 4,7). Se o amor de Deus se manifestou no amor às pessoas, também o amor das pessoas deve manifestar-se no amor aos semelhantes.

            É assim que faz quem “conhece” a Deus. “Conhecer” na teologia de São João não é só tomar conhecimento de alguma coisa, estar informado sobre alguma coisa. “Conhecer” é mais: é saber por experiência. Por isso, quem “conhece” a Deus, faz como Deus faz. Seu amor é como o amor de Deus: é amor às pessoas. Essa atitude pertence de tal forma ao conhecimento de Deus que, quem não ama, não conhece a Deus.

5- A PALAVRA SE FAZ CARNE E CELEBRAÇÃO

O perigo da religião individualista

            Nossa vida é pontilhada de expressões que usam palavras amor/amar. Quantas vezes observamos, nos carros, adesivos com a frase “eu amo esta ou aquela cidade”? Quantas vezes ouvimos exclamações do tipo “que amor de decoração!”; “que amor de roupa!”; “esta criança é um amor!”; “obrigado, por ter feito isso, você é um amor!”? Certas músicas religiosas produzidas hoje também vão nessa linha. Quantas vezes ouvimos “eu amo você meu Jesus”; “te olhar, te tocar e ver meu Deus como és lindo!”. Acabam sendo músicas de consumo e que não revelam a densidade do mistério celebrado. A música ritual, isto é, a música litúrgica é reveladora do Mistério celebrado e não tanto pela beleza, pela estética. A música ritual é sinal do mistério porque ela é portadora da memória de Jesus Cristo

            Essas expressões e outras tantas semelhantes revelam um “amor” muito próprio de nossa sociedade egocêntrica e subjetivista. Eu amo tal cidade porque ela foi fonte de prazer para mim; a decoração é um amor porque proporciona uma sensação agradável. A criança e o amigo tornam-se “amor” porque oferecem algo bom para mim, algo que me faz bem.

Amor doação

O individualismo não é coisa da religião, isto é, não é próprio do Cristianismo, mas do nosso tempo, da nossa cultura individualista e egocêntrica. Então os movimentos da Igreja, e muitos compositores não estão imunes do individualismo pregado pela nossa cultura moderna. Mas é preciso ter consciência da dimensão comunitária e social do Cristianismo e lutar contra essa cultura egocêntrica que penetrou nos cristãos.

Em contra posição a isso tudo, Jesus propõe-nos o amor doação, entrega, oblação do qual ele mesmo foi modelo e mestre. Não nos propõe um amor individualista tipo “eu te amei”, Pai meu que está no céus, o pão meu de cada dia, mas ao contrário dizendo: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Não está na hora de redescobrirmos essa dimensão social do Cristianismo?

6- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

            A assembléia reunida para celebrar é uma reunião fraterna, na qual as diferenças se esvanece – Deus, que nos amou primeiro, não faz distinção entre os que dela participam. Todos têm oportunidade de alimentar-se da Palavra e do pão da eucaristia.
           
Na celebração semanal da Páscoa de Cristo, reafirmamos nossa comunhão com Deus e com os irmãos, Na oração do dia, neste domingo, pedimos a Deus que nos conceda o fervor necessário “para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos”. Além disso, queremos, efetivamente, ser testemunhas do Evangelho pelo amor. Assim, apresentamos as oferendas como meio de purificação para que possamos corresponder, “cada vez melhor, aos sacramentos do amor de Deus”.

            No final da liturgia eucarística, rezamos para que Deus faça “frutificar em nós o sacramento pascal” e infunda “em nossos corações a força desse alimento”. Na celebração de hoje, damos especial relevo ao amor total de Cristo por nós. Conforme rezamos no V Prefácio do Domingo de Páscoa, página 425 do Missal Romano, Cristo cumpriu inteiramente a vontade do Pai. Revelou-se como aquele que oferece o sacrifício (Sacerdote), como aquele sobre o qual se eleva o sacrifício ao Pai (Altar), como aquele que é sujeito do sacrifício (Cordeiro). Por isso neste solene Tempo Pascal, transbordamos de alegria e, com renovado entusiasmo, fazemos ecoar nosso canto: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo! O céu e a terra estão cheios da vossa glória! Hosana nas alturas!” e também: “O Senhor ressurgiu, Aleluia, Aleluia,/ É o Cordeiro Pascal, Aleluia,/ Imolado por nós, Aleluia, Aleluia/ é o Cristo Senhor, ele vive e venceu, Aleluia!

            Que a celebração eucarística deste 6º Domingo da Páscoa fortaleça nossa disposição de nos colocarmos a serviço de Deus e dos irmãos e, assim fortificados, possamos manifestar a todos que querem ver Jesus: Deus permanece conosco porque Ele é amor

7. ORIENTAÇÕES GERAIS

1. Os cinqüenta dias que vão desde o Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor até o Domingo de Pentecostes devem ser celebrados com verdadeira alegria como se fosse um grande domingo. Esses cinqüenta dias é como se fosse um só dia de festa, “símbolo da felicidade eterna” (Santo Atanásio). Os domingos pascais se caracterizam pela ausência de elementos penitenciais e pela acentuação de elementos festivos. A alegria deve ser a característica do Tempo Pascal. A alegria deve estar presente nas pessoas da comunidade e também no espaço litúrgico, na cor branca (ou amarela), nas flores, no canto alegre do “Aleluia”, na alegria de sermos aspergidos pela água batismal, no gesto da acolhida e da paz. O Tempo Pascal constitui-se em “um grande domingo”. Mesmo sendo o 6º Domingo da Páscoa, Vivenciamos dias de Páscoa e não após a Páscoa.

2. Dar destaque durante o Tempo Pascal para a água batismal. Onde há pia batismal, ela deve ser o ponto de referência para a realização de ritos como aspersão, renovação de promessas, compromissos. Onde não há pia batismal, preparar alguma vasilha de cerâmica, de preferência junto do Círio Pascal.

3. A equipe de celebração, além de zelar pelo clima favorável à participação da assembléia, cuide para que cada ministério seja bem executado e tenha a devida preparação. Deve também acolher com carinho as pessoas que chegam para participar da celebração.

8- MÚSICA RITUAL
O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos cantar a liturgia e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com cada domingo, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são do Tempo Pascal, é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado. A função da equipe de canto não é simplesmente cantar o que gosta, mas cantar o mistério da liturgia deste 6º Domingo da Páscoa. Os cantos devem estar em sintonia com o Ano Litúrgico, com a Palavra proclamada e com o sacramento celebrado. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembleia, “inseri-la no mistério celebrado” (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia X, Tempo Pascal Ano B. Encontramos também no Ofício Divino das Comunidades ótimas opções.

1. Canto de abertura. Gritos de alegria! Deus salvou seu povo (Isaias 48,20) ou “Cristo ressuscitou verdadeiramente” (Apocalipse 1,6). “O Senhor ressurgiu, aleluia, aleluia”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 1.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD: Liturgia X.

2. Refrão para o acendimento do Círio Pascal. “Cristo-Luz, ó Luz, ó Luz bendita...”, CD: Festas Litúrgicas I, melodia da faixa 9; “Salve Luz eterna, és tu Jesus...”, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 292.

3. Canto para acompanhar a aspersão com a água. “Eu vi foi água”, CD: Tríduo Pascal II, melodia da faixa 12 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 225; “Banhados em Cristo”, CD: Tríduo Pascal II, melodia da faixa 11 ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 196. Outra opção é o refrão: “Jesus o seu batismo na Páscoa completou, passou as grandes águas o mar atravessou, abrindo o caminho, teu povo libertou”. (bis). Mesma música do domingo de Ramos “os filhos dos hebreus”.

4. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas...” Vejam o CD: Tríduo Pascal I e II e também no CD: Festas Litúrgicas I, Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria e outros compositores.

O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembléia.

5. Salmo responsorial 97/98. Deus mostra a sua bondade a todos os povos. “O Senhor fez conhecer a salvação”, CD: Liturgia X melodia igual a faixa 16.

6. Aclamação ao Evangelho. Inabitação de Cristo e Deus naquele que ama (João 14,23). “Aleluia... Quem me ama realmente guardará minha Palavra”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 3. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical ou a versão do CD.

7. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração, no Tempo Pascal. “Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 12.

8. Canto de comunhão. Amar Jesus é guardar sua Palavra (João 14,15-16). “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão”, CD: Liturgia X, melodia da faixa 14. Este canto é o mais apropriado para a celebração deste Domingo. Outro canto muito oportuno para este Domingo é o canto: “Com amor eterno eu te amei, dei a minha vida por amor. Agora, vai, também ama o teu irmão”. Encontra-se no livro de cantos Caminha e Canta! As melhores musicas de Irmã Míria Therezinha Kolling, página 02.

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho do 6º Domingo da Páscoa onde contemplamos o Cristo nos convidando a permanecer no seu amor. Esta é a sua função ministerial. A liturgia de cada Domingo, principalmente de hoje oferece para realçar a relação entre “a Mesa da Palavra” e “a Mesa Eucarística”, mediante o simbolismo do pão e do vinho. A ligação do Evangelho de hoje com o de Domingo passado é muito profunda, é uma continuação do capítulo 15 de João: Cristo-Videira e os ramos no Domingo passado e, hoje, Cristo-Amor que nos convida a permanecer no seu amor. O Canto de Comunhão sugere esta ligação. A linguagem dos símbolos poderá visualizar que a “Videira verdadeira” produziu, como primeiro de seus frutos, o “vinho da salvação”, isto é, o sangue derramado na Cruz. Os nossos frutos deverão ser da mesma natureza. Sem a nossa ligação com Cristo-Amor, não somos capazes de amar o próximo.

9- ESPAÇO CELEBRATIVO

1. O Círio Pascal deve estar sempre presente, junto à Mesa da Palavra em todas as celebrações do Tempo Pascal até pentecostes. É importante que o Círio seja aceso no início da celebração, após o canto de abertura, enquanto a assembléia entoa um refrão pascal. Ele é o sinal do Cristo ressuscitado, Senhor de nossas vidas.

2. Sugerimos colocar, próximo ao Círio Pascal, as faixas jogadas ao chão e o véu dobrado como os discípulos encontraram ao entrar no sepulcro mantendo a ligação com a Vigília Pascal-Domingo de Páscoa.

9. AÇÃO RITUAL

Celebramos a salvação que Deus nos oferece na comunhão com Cristo que se realiza na comunhão dos irmãos e irmãs. Deus nos constitui a todos sinais de sua presença quando nos uniu a Jesus pelo Batismo. Em cada Missa fortalecemos essa comunhão. Também sobre nós se oferece aquela Palavra que Jesus diz hoje “Permanecei no meu amor” (João 15,9a).

A equipe de celebração acolhe as pessoas com o mesmo amor que Jesus acolhia as pessoas.

Ritos Iniciais

1. Na procissão de entrada entrar com as pessoas que foram batizadas ou pessoas que receberam um dos sacramentos na Vigília Pascal, ou crianças com vestes brancas. Destacar também a presença das mães na comunidade. Na procissão de entrada, se oportuno, convidá-las a entrar acompanhando o ministro e a equipe de celebração.

2. Dar particular destaque à acolhida do Círio Pascal. Por exemplo, após o canto de abertura, fazer um pequeno lucernário, solenizando o acendimento do Círio Pascal: uma pessoa acende o Círio e diz: “Bendita sejas, Deus da Vida, pela ressurreição de Jesus Cristo e por essa luz radiante!”. Ou outros refrões que revela o sentido pascal: “Salve, luz eterna és tu, Jesus!/ Teu clarão é a fé que nos conduz! (Hinário II, pág. 292). “Cristo-Luz, ó Luz bendita,/ Vinde nos iluminar!/ Luz do mundo, Luz da Vida,/ Ensinai-nos a amar! A seguir, incensa o Círio pascal e a comunidade reunida.

3. Se a comunidade tiver dificuldade para fazer este pequeno lucernário, o presidente da celebração ou outra pessoa acende o Círio Pascal.

4. Logo após o beijo do Altar e terminado o canto de abertura, sugerimos, como fórmula de saudação presidencial, a opção “a”, do Missal Romano, 2Coríntios 13,14  que explicita a relação do Cristão com o amor:

A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito santo estejam convosco.

5. Após a saudação do presidente, o sentido litúrgico pode ser feito com palavras semelhantes:

Domingo do mandamento novo. Irmãos e irmãs, o amor de Deus vem ao nosso encontro quando nos reunimos para fazer a memória da Ressurreição de Jesus. A vitória de Cristo é a vitória do amor. O cristão, chamado a viver como seu Mestre e Senhor, exprime, na celebração, a graça do amor vivido no dia a dia.

6. Após o sentido litúrgico, quem preside a assembleia, fazer uma recordação da vida, tornando presentes as realidades que hoje precisam ser transformadas no Amor de Cristo. Não esquecer os fatos positivos que revelam o amor entre os irmãos. Trazer os fatos da vida de maneira orante e não em forma de noticiários.

7. No lugar do Ato Penitencial, faça-se a aspersão da assembléia que manifesta a união de Cristo e dos cristãos pela recordação do Batismo com a água que foi abençoada na Vigília Pascal. Ajudar a comunidade a aprofundar sua consagração batismal. Não havendo água abençoada na Vigília Pascal, o ministro reza o oração de bênção conforme o Tempo Pascal que está no Missal Romano página 1002. No ato da aspersão, a assembléia canta: “Banhados em Cristo, somos u’a nova criatura./ As coisas antigas já se passaram,/ Somos nascidos de novo./ Aleluia, aleluia, aleluia! Outra opção é o canto “Eu vi foi água manar”. Outro refrão oportuno para a aspersão:  “Jesus o seu batismo na Páscoa completou, passou as grandes águas o mar atravessou, abrindo o caminho, teu povo libertou. (bis). Mesma música do domingo de Ramos “os filhos dos hebreus”. Ver em Música Ritual.

8. Cantar com vibração o Hino de louvor. Durante a Quaresma ele foi silenciado, agora deve ser cantado com exultação porque é o Hino Pascal do Glória.

9. Na Oração do dia, suplicamos a Deus, que nos dê celebrar com fervor os dias do Tempo Pascal com júbilo em honra do Cristo Ressuscitado. Assim nossa vida corresponda aos mistérios que celebramos na Divina Liturgia. Esta oração é inspirada em Atos 12,2-3: toda Liturgia é em honra do Senhor.

Rito da Palavra
             
            1. Hábitos, como comentários e anúncio do nome dos leitores são cada vez mais dispensáveis, quando compreendemos que é o próprio Cristo que proclama a primeira leitura, o salmo, a segunda leitura e o Evangelho (Isaias 61,1-2; cf. Lucas 4,18-19.21). É Cristo que fala pela boca dos leitores que estão a serviço da comunidade. O que precisa mesmo é uma boa proclamação e não acessórios que nada acrescentam na nossa relação com Deus.

2. Antes da primeira leitura, em vez de comentários, o refrão meditativo que ajuda a preparar a escuta da Palavra pode ser: “Deus é amor, arrisquemos viver por amor. Deus é amor, Ele afasta o medo”, da comunidade de Taizé. O refrão poderá ser repetido após a homilia.

Rito da Eucaristia

1. Preparar as oferendas de modo solene, arrumando o altar neste momento, fazendo a procissão das oferendas do pão e do vinho, como também de ofertas para os pobres expressando neste momento de partilha que Deus é amor. Como ele nos ama, devemos também amar os irmãos, sobretudo os necessitados.

2. Na Oração sobre as Oferendas, pedimos que nossas preces e nossas oferendas subam até Deus a fim de que sejamos purificados pela bondade do Deus-Amor.

3. Seria oportuno escolher o Prefácio da Páscoa IV no qual contemplamos Cristo como plenitude da vida: “Dele recebemos a vida que possui em plenitude”. Onde for possível, cantar o Prefácio e, nas celebrações da Palavra, cantar a louvação pascal com a melodia da louvação do Natal Hinário I da CNBB, pag. 74, e a letra do Hinário Litúrgico II da CNBB, pag. 156.
                
4. Motivar o abraço da paz como a paz do Ressuscitado. Não se trata de um momento de confraternização, nem momento para cantar. O rito mais importante é o que vem a seguir, ou seja, a fração do pão, que deve ser uma ação visível acompanhada pela assembléia com o canto do Cordeiro.

            5. De acordo com as orientações em vigor, a comunhão pode ser sob as duas espécies para toda a comunidade. “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no Reino do Pai” (IGMR, nº 240).

Ritos Finais

1. Na Oração depois da Comunhão, peçamos a Deus com fervor que frutifique em nós o sacramento pascal e infundi em nossos corações a força da Eucaristia, alimento de salvação.
           
            2. As palavras do envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Ide em paz, e o Senhor vos acompanhe, aleluia, aleluia!

Todos: Graças a Deus, aleluia, aleluia!

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Nós amamos a Deus porque ele nos amou primeiro” (1João 4,19). Amar não é senão corresponder a Deus, devolver-lhe a sua ternura, participar com as outras pessoas no amor que Dele recebemos gratuitamente, como pura graça e dom de quem Se define como Amor.

Celebremos nossa Páscoa, na pureza e na verdade, aleluia, aleluia.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos.
           
Pe. Benedito Mazeti

quinta-feira, 18 de maio de 2017

6º DOMINGO DA PÁSCOA NA RESSURREIÇÃO DO SENHOR - ANO A

21 de maio de 2017

Leituras

     Atos 8,5-8.14-17
     Salmo 65/66,1-7.16.20
     1Pedro 3,15-18
     João 14,15-21 

“NÃO VOS DEIXAREI ÓRFÃOS”


1- PONTO DE PARTIDA

Domingo da promessa do Espírito Santo. A liturgia nos coloca neste Domingo, o Sexto da Páscoa, em clima de Pentecostes. Aprofunda o significado da ressurreição, preparando-nos para a grande celebração que irá concluí-la com a vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, a manifestação pública da Igreja. Podemos dizer que é a sua inauguração. O Senhor não nos deixou órfãos de sua presença, mas mandou-nos o Defensor para permanecer juntos de nós, dentro de nós.

O Senhor nos garante sua presença entre nós por intermédio do Espírito Santo e nos revela a alegria da sua ressurreição para que possamos ser portadores deste anúncio por onde andarmos.

O Espírito Santo é nosso defensor e aquele que nos revela a verdade do Pai. A Páscoa de Jesus se realiza nas pessoas e comunidades que se deixam iluminar e conduzir pelo Espírito de Deus.

2- REFLEXÃO BÍBLICA, EXEGÉTICA E LITÚRGICA

Primeira leitura – Atos dos Apóstolos 8,5-8.14-17.  Os samaritanos, embora com a mesma origem dos judeus, eram desprezados por estes e considerados supersticiosos.

Conforme Lucas o Cristianismo se expandiu a partir de Jerusalém em círculos concêntricos sempre mais largos. Ele mesmo indica estes círculos em Atos 1,8: “Serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a região da Judéia e Samaria e até os lugares mais distantes da terra”.

Para cada uma das etapas de extensão Lucas destaca duas figuras-chaves. Para Jerusalém são os apóstolos Pedro e João; para a Judéia e Samaria, Estevão e Filipe; para “os lugares mais distantes da terra”, Barnabé e Paulo.

Para cada etapa ele marca também uma efusão  do Espírito Santo que apresenta como “repetições” da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos em Jerusalém no dia de Pentecostes (Atos 2,4-8.38); Samaria: 8,15-17; Cesaréia: 10,44-46; Éfeso: 19,6).
Um dado importante aqui consiste na ligação das novas comunidades cristãs com a Igreja-Mãe de Jerusalém. No caso da Samaria ela é assegurada pela missão de Pedro e João da parte da Igreja-Mãe e do colégio apostólico (Atos 8,14). Como emissários ou delegados, eles incorporam a nova comunidade de Samaria plenamente na “Igreja apostólica”.

Este texto é considerado o mais antigo testemunho da celebração do sacramento da confirmação. Com certeza, os apóstolos aí garantem a comunicação do Espírito Santo (versículos 15-17) pela imposição das mãos após a celebração do batismo e durante uma reunião de orações, modalidades que a Tradição Ocidental impõe em seu ritual de confirmação (Atos 19,1-7).

Portanto, não podemos afirmar que os Apóstolos estivessem conscientes de administrar a confirmação: distribuíam, antes, aos batizados, os bens e os carismas dos tempos cristãos. Sua imposição das mãos tornou-se, um dia, uma das bases do sacramento da confirmação, mas não podemos dizer que esta passagem já permite esta interpretação.

A visita de Pedro e João à Samaria também é um modo de proceder destinado a promover a unidade da Igreja. A Samaria é, com efeito, um campo de apostolado onde os próprios apóstolos não semearam e onde apenas vêm colher (cf. João 4,27-38).

A experiência de Filipe na Samaria, descrita na primeira leitura, acrescenta que é necessário guardar-se de certas polêmicas estéreis, enquanto é eficaz a pregação do Evangelho como Boa Notícia.

Salmo responsorial – 65/66,1-7.16.20  É um salmo de ação de graças pública e de caráter universal, ação litúrgica feita por um fiel que, juntamente com outros viveu uma dura prova e foi dela libertado (cf. versículos 16.20). Na festa litúrgica, na oração do povo, voltam a tornar-se presentes as obras históricas de Deus. Sobretudo a grande obra redentora, resumida na passagem milagrosa do Mar Vermelho “Mudou o mar em terra firme” (versículo 6a). Neste acontecimento, relembrado, Deus manifesta seu acontecimento duradouro.

A grande obra redentora de Cristo volta a desdobrar seu poder salvador em nossa vida; o cristão recebe e proclama esta salvação no seio da comunidade eclesial. Com seu sacrifício, Cristo pôs fim aos sacrifícios antigos: “Não com sangue de bodes e novilhos, mas com o próprio sangue, obtendo uma redenção eterna” (Hebreus 9,12). Por isso o cristão oferece este sacrifício na Eucaristia, recordando o que Deus realizou com Cristo, o que Cristo realizou pelo ser humano.

O rosto de Deus no salmo 65/66. O salmo fala do Deus aliado de uma pessoa e de um povo e, poderíamos dizer, aliado da terra inteira (versículo 1b). Aliado na defesa da promoção da vida. Onde a vida corre perigo, aí está Deus, libertando e introduzindo na terra da liberdade (versículo 6), preservando a terra da promessa (versículo 7).

Ao longo de sua vida, Jesus continuou fazendo as obras do Pai (João 5,17), sinal de que não há ruptura entre o primeiro e o segundo. “Quem me viu, viu o Pai” (João 14,9). De acordo com Lucas 7,16, Jesus é a visita de Deus para com o povo que sofre. Mas, na verdade, poucos são os que se lembram de agradecer a presença e a visita de Deus na vida das pessoas (Lucas 17,11-19).

Cantando este Salmo neste Sexto Domingo da Páscoa, agradeçamos ao Pai por ter realizado a maior obra de salvação em Jesus Cristo através de sua morte e ressurreição.

Segunda leitura – 1Pedro 3,15-18.  Pedro os novos cristãos no estilo de vida pascal. Já falou de sua atitude em relação aos pagãos e às autoridades (1Pedro 2,11-17), elaborou uma moral do escravo cristão e dos esposos cristãos (1Pedro 2,18—3,7). Trata, agora, das relações interpessoais: primeiramente, em comunidade (1Pedro 3,8-12), em seguida, em face dos perseguidores que está na leitura de hoje.
No capítulo 3,14-15 Pedro cita Isaias 8,12, mas com mudanças interessantes, isto é, ele faz uma releitura do profeta. Isaias escreveu: “Não tenham medo e nem se assustem diante dele! Santifiquem o Senhor!” Em 1Pedro 3,14-15 lê-se: “Não tenham medo diante deles, nem se assustem. Santifiquem Cristo, o Senhor, em seus corações”. O profeta Isaias referia-se ao rei da Assíria, o grande imperialista da segunda parte do século VIII antes de Cristo, que se apoderou dos pequenos reinos do Oriente Médio e também ameaçava apoderar-se do povo de Deus. Isaias lembra aos seus conterrâneos: quem acreditar no Senhor não precisa ter medo do rei da Assíria.

Pedro atualiza este texto de Isaias, passando o singular para o plural, referindo-se a todos quantos importunam os cristãos por causa da fé. “O Senhor Javé”, é mudado em “Cristo, o Senhor”. Por fim Pedro acrescenta “em seus corações”, interiorizando assim a santificação. “Santificar” significa “reconhecer”, “respeitar”, “dar ao Cristo, Senhor, e à sua vontade o lugar que Lhe compete”. Em outras palavras, o reconhecimento de Cristo como Senhor há de se interiorizar no coração para, daí, marcar a personalidade e a existência dos cristãos na estabilidade da vida.

Este texto não apresenta nenhuma dificuldade particular. Mesmo que se desencadeia a perseguição contra os cristãos, eles poderão revelar sua boa consciência pela mesma maneira como reagirão sem a menor agressividade para com seus adversários, mas, ao contrário, com generosidade e respeito (versículo 16). Portanto, Pedro, recomenda a não-violência no âmago mesmo dos conflitos que não cessam de opor os cristãos a certos poderes do mundo. Pedro se inspira nas palavras de Jesus quando disse: “Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, a fim de serdes verdadeiramente filhos do vosso Pai que está nos céus, pois ele faz nascer o sol sobre os maus e os bons, e cair a chuva sobre os justos e injustos” (Mateus 5,44b-45).

Evangelho – João 14,15-21. Depois do anúncio da Sua partida (João 14,1-12, Evangelho do Domingo passado), Jesus promete o Seu regresso. Ele voltará através do Espírito Santo. Temos no versículo 16 a primeira das cinco promessas do Espírito Santo, prometidas por Jesus durante a Última Ceia, mas a vinda do Espírito significará também a presença do próprio Cristo de um modo novo: já não como uma pessoa alheia aos discípulos, mas como alguém que habita neles, numa comunhão que torna presente a mesma união do Filho com o Pai: “Eu estou no Pai, vós em Mim e Eu em vós” (versículo 20).

As palavras do Evangelho devem ser entendidas tendo presente que Jesus está ainda respondendo ao pedido do Apóstolo Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai” (João 14,8). Jesus reage à pergunta dizendo que o Pai é visto no Filho, mas oferece-Se aos discípulos um modo que ultrapassa a relação visual: o Pai vem habitar com Jesus no ser humano, o Filho torna acessível ao ser humano na mesma comunhão de vida que O une ao Pai. É necessário, porém, que o ser humano deposite toda a sua confiança no Senhor.

Extraído do primeiro discurso após a Ceia, este trecho proclamado na liturgia deste Domingo traz presente para a assembléia a maioria dos temas das despedidas do Senhor de seus Apóstolos: a exigência de guardar a Palavra (versículo 15), o sentido da oração do Filho (versículo 16), o Paráclito (versículo 10), o conhecimento de Deus (versículos 17 e 19; cf. João 16,16-22), a morada (versículo 17; cf. João 14,23-24).

A originalidade desta passagem é a de fazer a síntese de todos estes temas em torno do “mandamento do amor”. Amar é guardar os mandamentos, pois estes se resumem num só: o amor. Amar é conhecer Deus e seu Filho, pois este conhecimento não é intelectual, nem romantismo, mas comunhão e partilha.

Em João 14,1-14 o verbo-chave é “crer, acreditar, confiar” (versículos 1.10-12; num total de 6 vezes). Em João 14,15-26 domina o verbo “amar” (versículos 14.21.23s; num total de 8 vezes). Em João 14,1-14 o pensamento vai em direção do Pai para onde vai Jesus. Ele vai, mas os que crêem Nele podem acompanhá-Lo. Quem crê em Jesus está em condições para, como Ele, chegar ao Pai e para fazer o que o Pai deu a fazer a Ele.

Em João 14,15-26 o pensamento vai em direção oposta. Jesus vai. Mas a sua ida não causará um abandono, um vazio. Pelo contrário! Ela criará condições para uma presença muito mais plena e perfeita. A presença humana, por mais intima que seja, sempre permanece uma presença de uma pessoa ao lado de outra e, pois, revestida de exterioridade e de uma grande margem de incomunicabilidade. É uma presença que apóia. A nova presença de Jesus Ressuscitado não estará mais limitada por esta exterioridade e por esta margem de incomunicabilidade. O Espírito Santo interiorizará a Sua presença exterior pré-pascal.

É pura verdade! Pois a nova presença não se limitará a uma presença Dele. Ele não voltará sozinho, mas com Ele virão o Pai e o Espírito Santo, que estarão com eles e neles agirão. No trecho 14,15-26 volta três vezes o mesmo raciocínio por assim dizer “Trinitário”. “Se vocês me amam, o Pai lhes dará o Espírito para ficar sempre com vocês” (versículos 15s). “Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu me revelarei a ele” (versículo 21). Como se realizará este auto-revelação? É mediante o Espírito Santo, como esclarece o raciocínio dos versículos 23-26, que pode ser resumido nas ligações: “Quem me ama, será amado por meu Pai e Ele, em meu nome, mandará o Espírito Santo.

A presença de Jesus terrestre junto aos discípulos será, portanto, substituída por uma presença da Santíssima Trindade no interior deles, isto é, no coração dos discípulos.

A assistência do Espírito Santo conferirá a infalibilidade para a Igreja (versículos 16-17). O Espírito da verdade permanecerá solidário com a aventura missionária da Igreja e se oporá ao Espírito da mentira (João 8,44; 1João 4,3). Isso não quer dizer que a Igreja não possa cometer erros: mesmo sua mensagem, ao ser humanamente anunciada, não está isenta de ambigüidade. A maravilha da assistência do Espírito da Verdade, não é que não se cometa nenhum erro na Igreja, mas que apesar destes erros e para além de todos os erros, a Igreja jamais será abandonada pela verdade de Deus. Isto quer dizer que a verdade possuída pela Igreja é um dom e não o fruto de suas reflexões.

3- DA PALAVRA CELEBRADA AO COTIDIANO DA VIDA

Depois da morte e ressurreição de Jesus, a comunidade encontra-se diante do mundo hostil do Império Romano, que perseguia a matava quem acreditava em Jesus. É o mundo da injustiça, da opressão contra os pobres, da idolatria do dinheiro e do poder, das vaidades que costumam encher de orgulho as pessoas.

O Ressuscitado permanece de uma forma nova na comunidade e, ainda mais, envia o Defensor que Lhe revela todo o plano de Deus. Com o Espírito Santo, os discípulos são capazes de penetrar no coração de Deus e descobrir seu amor e seu projeto para toda a humanidade.

O Espírito Santo vive e permanece sempre em nós, dando-nos consciência e compreensão da verdade que Jesus nos revelou com sua vida, paixão, morte e ressurreição. A condição para ter este Espírito é a vivência dos mandamentos que se resumem em um só: o amor. Jesus nos chama a viver no amor como Ele viveu.

A presença do Senhor Ressuscitado na comunidade deve se manifestar através de um compromisso efetivo, de uma aliança firme, do cumprimento de seus ensinamentos por parte dos discípulos. Esta é a única forma de tornarmos real e concreto o amor que dizemos ter pelo Senhor. Não se trata de uma volta ao legalismo judaico. O Evangelho declarou o amor como a lei máxima: o amor a Deus e amor entre os irmãos, amor que deve ser criativo, manifestado por obras concretas e comprometido com a vida, motivo principal do projeto de Jesus.

A ação evangelizadora narrada na primeira leitura, é trabalho do Espírito Santo. Ele rompe fronteiras nacionais, supera ódio e rivalidades ancestrais, provocando pelo contrário, a unidade e a concórdia dos que crêem, como bem comprovam os Apóstolos Pedro e João, que com sua presença na Samaria confirmam o trabalho de Filipe. Trata-se de uma espécie de Pentecostes a vinda do Espírito Santo sobre esses novos cristãos procedentes de um grupo de samaritanos, tão desprezados pelos judeus.

Para o Espírito Divino, não há barreiras nem fronteiras. Ele é Espírito de unidade e de paz.

4- A PALAVRA SE FAZ CELEBRAÇÃO

“O amor de Cristo nos uniu”

No começo de toda celebração eucarística, nossa resposta à saudação do presidente é: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”. Temos aqui uma bênção e louvação a Deus pela sua ação de convocar o povo para tornar-se assembléia, Igreja.

A reunião da comunidade, portanto, é a manifestação histórica e espiritual do Amor de Deus por nós. De modo visível, sensível podemos contemplá-Lo de fato no povo reunido e unido para celebrar. Este acontecimento se funda na ação que é própria do Espírito Santo: gerar unidade. Aquela mesma relação que enlaça Pai e Filho se derrama na assembléia e a envolve na vida interior de Deus. É neste sentido que dizemos que a Eucaristia é adoração ao Pai, no Filho na força do Espírito Santo. Assumimos o lugar do Filho, tornando-nos Seu Corpo e travamos uma relação de diálogo com o Pai. O Senhor nos fala através das Escrituras. Nós Lhe respondemos através de nossa vida, cujas “ações rituais” antecipam e realizam.

Se temos algum vínculo com alguém, se cultivamos laços, precisamos de alguma forma externar essa relação. Os que amam querem se ver, tocar-se, conviver. Isso se dá geralmente num encontro, numa reunião, ou festa (celebração). “É preciso ritos” nos diria o pequeno príncipe de Exupéry. Os ritos, ou a celebração, nada mais são do que uma relação que migrou do universo interior para o universo exterior da pessoa. Manifestando-se ela se realiza, concretiza-se e se qualifica como algo fundamental que ocupa todos os espaços do ser e da vida humana.

Deste modo, já no início da celebração realizamos aquilo que significamos através dos diversos ritos litúrgicos, conforme suplica a oração doa dia. “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”. Antes também do abraço da paz respondemos: “O amor de Cristo nos uniu”.

“Transbordando de alegria pascal”

Todos os prefácios pascais trazem a expressão “transbordando/ transbordamos de alegria pascal” ao prenunciar o louvor que se seguirá com o canto do Triságio, isto é, nome dado ao canto do Santo. De fato, uma comunidade que se entende mergulhada na vida de Deus não pode experimentar outro sentimento senão de imensa alegria porque nossa morte foi vencida através da vitória de Cristo Jesus.

Nossa participação nesta vitória se dá mediante nosso vínculo com Jesus. Esta ação de vincular-se a Jesus, vivendo a partir do Seu amor, é a graça maior que buscamos em cada Eucaristia. Dizendo do ponto de vista bíblico, conforme a segunda leitura, é a própria santificação de Jesus em nossos corações e uma maneira de dar a razão de nossa esperança.

Esta alegria pascal não pode ser refreada. Ela transborda primeiro para além das paredes de nosso eu, quando nos dirigimos aos irmãos e irmãs e lhes comunicamos a paz de Cristo, no rito da paz; e transborda para fora das paredes do templo, para além do qual confeccionamos uma vida justa, solidária e que é fonte de alegria para muitos entristecidos no mundo.

Uma vez que nos contagia, não há quem a controle. Evidenciamos esta força da alegria do Ressuscitado quando, ao sermos despedidos nos ritos finais, respondemos: Graças a Deus, Aleluia! Aleluia!

5- LIGANDO A PALAVRA COM A AÇÃO EUCARÍSTICA

Em cada celebração, neste Tempo Pascal estamos renovando a aprofundando nosso Batismo pelo qual fomos inseridos em Cristo, como ramos enxertados no tronco da vida.
E, hoje, o Espírito da Verdade nos é prometido! Ele permanece em nós! Somos habitação Dele! Como mãe, Ele nos guia, anima-nos e santifica-nos. Não estamos órfãos!

Com Ele estamos prontos para dar razão de nossa experiência em todas as circunstâncias, o que ritualmente faremos a seguir, professando com coragem a nossa fé cristã.

Na Eucaristia, cantamos o louvor de Deus e proclamamos suas maravilhas realizadas na Páscoa de Jesus e na Páscoa acontecendo entre nós e no mundo. O Espírito da Verdade nos fará passar da morte para a vida. Ele será invocado sobre os dons que apresentamos no Altar, pão e vinho, frutos da terra e do trabalho humano pra torná-los sacramento, sinal eficaz de nossa passagem, nossa saída do fechamento egoísta do pecado para abertura do amor. Amor que resgata nossa dignidade, nossa liberdade, nossa vocação à transcendência e sacia nossa profunda sede de Deus. Amor que vai até onde nenhum outro pode ir.

6. ORIENTAÇÕES GERAIS

1. Os cinqüenta dias que vão desde o Domingo de Páscoa na Ressurreição do Senhor até o Domingo de Pentecostes devem ser celebrados com verdadeira alegria como se fosse um grande domingo. Esses cinqüenta dias é como se fosse um só dia de festa, “símbolo da felicidade eterna” (Santo Atanásio). Os domingos pascais se caracterizam pela ausência de elementos penitenciais e pela acentuação de elementos festivos. A alegria deve ser a característica do Tempo Pascal. A alegria deve estar presente nas pessoas da comunidade e também no espaço litúrgico, na cor branca (ou amarela), nas flores, no canto alegre do “Aleluia”, na alegria de sermos aspergidos pela água batismal, no gesto da acolhida e da paz. O Tempo Pascal constitui-se em “um grande domingo”. Vivenciamos dias de Páscoa e não após a Páscoa.

2. O Círio Pascal deve estar sempre presente, junto à Mesa da Palavra em todas as celebrações do Tempo Pascal. É importante que o Círio seja aceso no início da celebração, após o canto de abertura, enquanto a assembléia entoa um refrão pascal. Ele é o sinal do Cristo ressuscitado, Senhor de nossas vidas.

3. Dar destaque durante o Tempo Pascal para a água batismal. Onde há pia batismal, ela deve ser o ponto de referência para a realização de ritos como aspersão, renovação de promessas, compromissos. Onde não há pia batismal, preparar alguma vasilha de cerâmica, de preferência junto do Círio Pascal.

4. Os cantos sejam preparados com antecedência, prevendo ensaios. O Hinário Litúrgico II da CNBB possui ótimas sugestões. As melodias estão gravadas no CD: Liturgia XVI – Páscoa Ano A.

5. O Tempo Pascal é, muito indicado, liturgicamente, para as celebrações da Crisma e da Primeira Eucaristia, numa continuidade com a noite batismal da Páscoa.

7- MÚSICA RITUAL

O canto é parte necessária e integrante da liturgia. Não é algo que vem de fora para animar ou enfeitar a liturgia. Por isso devemos “cantar a liturgia” e não cantar na liturgia. Os cantos e músicas, executados com atitude espiritual e, condizentes com “cada Domingo do Tempo Pascal”, ajudam a comunidade a penetrar no mistério celebrado. Portanto, não basta só saber que os cantos são da Páscoa, “é preciso executá-los com atitude espiritual. A escolha dos cantos deve ser cuidadosa, para que a comunidade tenha o direito de cantar o mistério celebrado”. Jamais os cantos devem ser escolhidos para satisfazer o ego de um grupo ou de um movimento ou de uma pastoral. Não devemos esquecer que toda liturgia é uma celebração da Igreja corpo de Cristo e não de um grupo, de uma pastoral ou de um movimento.

A escolha dos cantos para as celebrações seja feita com critérios válidos. Não se devem escolher os cantos para uma celebração porque “são bonitos animados e agradáveis”, ou porque “são fáceis”, mas porque são litúrgicos. Que o texto seja de inspiração bíblica, que cumpram a sua função ministerial e que se relacionam com a festa ou o tempo. Que a música seja a expressão da oração e da fé desta comunidade; que combinem com a letra e com a função litúrgica de cada canto.

1. Canto de abertura. “Com voz de alegria anunciai até os confins da terra” (Isaias 48,20). Além de Isaias 48,20, como canto de abertura, neste Sexto Domingo da Páscoa um canto muito oportuno é o Samba da Ressurreição: “Cristo está vivo, ressuscitou”, CD: Liturgia XVI, melodia da faixa 7. Neste canto quem preside pode dar destaque para a primeira estrofe, “A tristeza que foi companheira da gente deu lugar à alegria” que manifesta a nossa alegria, devido a presença do Senhor Ressuscitado que nos mostra o rumo certo a seguir.

Ensina a Instrução Geral do Missal Romano que o canto de abertura tem por objetivo, além de unir a assembléia, inseri-la no mistério celebrado (IGMR nº 47). Nesse sentido o Hinário Litúrgico II da CNBB nos oferece uma ótima opção, que estão gravados no CD Liturgia XVI.

2. Refrão para o acendimento do Círio Pascal. “Cristo-Luz, ó Luz, ó Luz bendita...”, CD: Festas Litúrgicas I, melodia da faixa 9; “Salve Luz eterna, és tu Jesus...”, Hinário Litúrgico II da CNBB, página 292.

3. Canto para o momento da aspersão com a água batismal. “Eu vi, eu vi, a água manar...”, CD Tríduo Pascal II, faixa 12; “Banhados em Cristo, somos uma nova criatura...”, CD: Tríduo Pascal II, melodia da faixa 11, ou Hinário Litúrgico II da CNBB, página 196.

4. Hino de louvor. “Glória a Deus nas alturas...” Vejam o CD: Tríduo Pascal I e II e também no CD: Festas Litúrgicas I, Partes fixas do Ordinário da Missa do Hinário Litúrgico III da CNBB e também a versão da CNBB musicado por Irmã Miria e outros compositores.

O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico, isto é, voltado para Cristo, que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai. Lembremo-nos: o Hino de Louvor não se confunde com a “doxologia menor” (Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo). O Hino de Louvor encontra-se no Missal Romano em prosa ou nas publicações da CNBB versificado numa versão que facilita o canto da assembléia.

5. Salmo responsorial 66/65. É um louvor universal a Deus por causa do seu amor pelas pessoas e por todas as obras criadas. “Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, cantai salmos a seu nome glorioso!”, CD: Liturgia XVI melodia da faixa 2.

6. Aclamação ao Evangelho. A morada de Cristo e do Pai em nós. (João 14,23). “Aleluia... quem me ama guardará minha Palavra, meu Pai o amará, e a ele nós viremos”, CD: Liturgia XVI, melodia da faixa 3. O canto de aclamação ao evangelho acompanha os versos que estão no Lecionário Dominical ou a versão do CD: Liturgia XVI.

7. Apresentação dos dons. O canto de apresentação das oferendas, conforme orientamos em outras ocasiões, não necessita versar sobre pão e vinho. Seu tema é o mistério que se celebra acontecendo na fraternidade da Igreja reunida em oração, no Tempo Pascal. “Cristo é o dom do Pai”, CD: Liturgia XVI, melodia da faixa 8.

8. Canto de comunhão. Amar Jesus é guardar sua Palavra (João 14,15-16). Para o canto de comunhão sugerimos o Salmo 138/139 com a antífona “Ressuscitei, Senhor, contigo estou, Senhor, teu grande amor, Senhor, de mim se recordou. Tua mão se levantou, me libertou”, CD: Liturgia XVI, melodia da faixa 10.

O canto de comunhão deve retomar o sentido do Evangelho do Sexto Domingo da Páscoa. Esta é a sua função ministerial. Na realidade, aquilo que se proclama no Evangelho nos é dado na Eucaristia, ou seja: é o Evangelho que nos dá o “tom” com o qual o Cristo se dirige a nós em cada celebração eucarística reforçando estes conteúdos bíblico-litúrgicos, garantindo ainda mais a unidade entre a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Isto significa que comungar o corpo e sangue de Cristo é compromisso com o Evangelho proclamado. Portanto, o mesmo Senhor que nos falou no Evangelho, nós o comungamos no pão e no vinho. É de se lamentar que muitas vezes são escolhidos cantos individualistas de acordo com a espiritualidade de certos movimentos, descaracterizando a missionariedade da liturgia. Toda liturgia é uma celebração da Igreja e não existem ritos para cada movimento.

8- ESPAÇO CELEBRATIVO

1. Todo o Tempo Pascal é tempo da ação do Espírito. Na Quaresma ele nos conduz ao deserto para provar nossa fé e adesão em Cristo, pelo Batismo, e no Tempo Pascal ele se revela como Amor de Deus que se derrama sobre o povo através de Jesus. A mesa da Palavra e da Eucaristia é onde exercitamos este amor, que nos foi dado na Páscoa de Jesus. Ornamentos que demonstrem a unidade da mesa da Palavra e da Eucaristia seriam oportunos em qualquer ocasião, e em particular nesta celebração. Mesmo estilo e elementos que componham os arranjos florais, por exemplo, pode ser uma possibilidade.

2. Vivamos intensamente este tempo de festa, celebrando a vida nova que Cristo nos deu, vencendo a morte. É importante que o espaço celebrativo da Vigília Pascal continue o mesmo para a celebração do Domingo de Páscoa e todo o Tempo Pascal.

3. Preparar de forma festiva o ambiente, dando destaque ao Círio Pascal e a pia batismal, com flores e a cor branca ou o dourado nas vestes e toalhas. Ornamentar com flores, mas em exageros, para não transformar o espaço da celebração numa floresta, para não roubar a cena do Altar e do Ambão.

4.  A Tradição Romana usa a cor branca neste tempo. Talvez, de acordo com a nossa cultura, podemos caprichar, usando a cor dourada ou várias cores festivas.

5. O Tempo Pascal não é nada mais, nada menos do que a própria celebração da Páscoa prolongada durante sete semanas de júbilo e de alegria. É o tempo da alegria, que culmina na festa de Pentecostes. Tudo isso deve ficar evidente no espaço da celebração.

9. AÇÃO RITUAL

Celebramos o amor de Cristo que se manifesta no amor dos irmãos e irmãs na fé. Nós que fomos escolhidos e chamados para tomar parte na vida de Cristo, reunimo-nos para aprofundar na comunhão dos irmãos a nossa fé na Páscoa de Jesus.

Ritos Iniciais

1. Após o canto de abertura, fazer um pequeno lucernário, solenizando o acendimento do Círio Pascal: uma pessoa acende o Círio e diz: “Bendita sejas, Deus da Vida, pela ressurreição de Jesus Cristo e por essa luz radiante!”. Ou outros refrões que revela o sentido pascal: “Salve, luz eterna és tu, Jesus!/ Teu clarão é a fé que nos conduz! (Hinário II, pág. 292). “Cristo-Luz, ó Luz bendita,/ Vinde nos iluminar!/ Luz do mundo, Luz da Vida,/ Ensinai-nos a amar! A seguir, incensa o Círio pascal e a comunidade reunida.

2. Sugerimos na saudação inicial, a fórmula “c”, pois reflete o mistério no qual Cristo nos conduz a Deus do Missal Romano que são as palavras conforme a 2Tessalonicenses 3,5:

“O Senhor, que encaminha os nossos corações para o amor de Deus e a constância de Cristo, esteja convosco”.

3. Após a saudação inicial, quem preside, propõe a todos um momento para Recordação da Vida como nos ensina Lucas 24,14-24 e Atos 4,23-31. Pode ser de grande ajuda para que as celebrações sejam cada vez mais ligadas à vida. Trazer os fatos de maneira orante e não como noticiário.

4. Em seguida, o presidente introduz a assembléia no mistério celebrado. Segue-se o convite para a recordação da vida.

5. Em seguida, dar o sentido litúrgico da celebração. O Missal deixa claro que o sentido litúrgico da celebração pode ser feito pelo presidente, pelo diácono um leigo/a devidamente preparado (Missal Romano página 390).

Domingo da promessa do Espírito Santo. O Senhor nos promete o Seu Espírito e nos revela a alegria da sua ressurreição, para que possamos ser portadores deste anúncio por onde andarmos.

6. A aspersão da comunidade, no lugar do Ato penitencial, é expressão fecunda de uma fé que nasce do Batismo. Após a bênção da água, enquanto se asperge a assembléia, pode-se cantar o hino da unidade de Efésios 4,4-6 (cf. Ofício Divino das Comunidades, pag. 255. Se a comunidade não conhecer esse canto, sugerimos cantar estas outras opções: “Eu vi, eu vi, foi água manar”, CD Tríduo Pascal II, faixa 12. “Banhados em Cristo, somos u’a nova criatura.). Rezar a oração de bênção conforme o Tempo Pascal (Missal Romano página 1002. Seria oportuno a mesma água que foi abençoada na Vigília Pascal.

7. Cantar com vibração o Hino de louvor. Durante a Quaresma ele foi silenciado, agora deve ser cantado com exultação porque é o Hino Pascal do Glória. O Hino de Louvor, na versão original e mais antiga, é um hino cristológico que exprime o significado do amor do Pai agindo no Filho. O louvor, o bendito, a glória e a adoração ao Pai (primeira parte do Hino de Louvor) se desdobram no trabalho do Filho Único: tirar o pecado do mundo, exprimindo e imprimindo na história humana a compaixão do Pai.

8. Na Oração do dia, suplicamos a Deus, que nos dê celebrar com fervor os dias do Tempo Pascal com júbilo em honra do Cristo Ressuscitado. Assim nossa vida corresponda aos mistérios que celebramos na Divina Liturgia. Esta oração é inspirada em Atos 12,2-3: toda Liturgia é em honra do Senhor.

Rito da Palavra

            1. Hábitos, como comentários e anúncio do nome dos leitores são cada vez mais dispensáveis, quando compreendemos que é o próprio Cristo que proclama a primeira leitura, o salmo, a segunda leitura e o Evangelho (Isaias 61,1-2; cf. Lucas 4,18-19.21). É Cristo que fala pela boca dos leitores que estão a serviço da comunidade. O que precisa mesmo é uma boa proclamação e não acessórios que nada acrescentam na nossa relação com Deus.

2. Após as leituras, o salmo e a homilia, prever momentos de silêncio, para fortalecer a atitude de acolhida da Palavra em nossa vida e em nossa ação.

3. Após a homilia e o silêncio, cante-se um refrão meditativo enquanto a assembléia contempla o Ícone do Ressuscitado. Pode-se fazer de duas formas:

a) Se a comunidade for pequena, as pessoas se dirigem ao Ícone e fazem um gesto de veneração. Podem ir em fila ou aleatoriamente.

            b) Se a comunidade for grande, o presidente da celebração toma o Ícone nas mãos e percorre o espaço da igreja, de modo que todos vejam e, igualmente, manifestem sua veneração.

4. Quem preside, motivar que a profissão de fé seja feito de mãos dadas, para que a assembléia perceba que professa a mesma fé.

5. Valorizar as preces dos fiéis. Neste Domingo da promessa do Espírito Santo, seria interessante cantar a resposta das preces com o seguinte refrão: “Enviai, o vosso Espírito, Senhor”.

Rito da Eucaristia

1. Na Oração sobre as Oferendas, pedimos que nossas preces e nossas oferendas subam até Deus a fim de que sejamos purificados pela bondade do Deus-Amor.

3. O Prefácio da Páscoa III, página 423 do Missal Romano é uma boa escolha para essa celebração. Ele traz a dimensão do serviço intercessor de Jesus, o Ressuscitado, de modo que continua a se oferecer pela humanidade, agora numa vida indestrutível. Seguindo esta lógica, cujo embolismo reza: “Ele continua a oferecer-se pela humanidade, e junto de vós é nosso eterno intercessor. Imolado, já não morre; e, morto, vive eternamente”. O grifo no texto identifica aqueles elementos em maior consonância com o Mistério celebrado neste Domingo e que pode ser aproveitado na própria, ao modo de mistagogia.

4. Proclamar com vibração a ação de graças (Oração Eucarística), onde for possível, cantar o Prefácio e, nas celebrações da Palavra, cantar a louvação pascal, isto é, o “Bendito Pascal”, com a melodia da louvação do Natal Hinário I da CNBB, pag. 74, e a letra do Hinário Litúrgico II da CNBB, pag. 156.
               
5. Motivar o abraço da paz como a paz do Ressuscitado. Não se trata de um momento de confraternização, nem momento para cantar, mas que seja expressão da fé e do amor vividos em comunidade. O rito mais importante é o que vem a seguir, ou seja, a fração do pão, que deve ser uma ação visível acompanhada pela assembléia com o canto do Cordeiro.

            6. Dar realce ao gesto da “fração do pão”. Cristo nosso Páscoa, é o Cordeiro imolado, Pão Vivo e verdadeiro. Um (uma) solista canta: “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo. A assembléia responde: Tende piedade nós...  Deve ser executado assim, para não perder o caráter de ladainha.
     
7. De acordo com as orientações em vigor, a comunhão pode ser sob as duas espécies para toda a comunidade. “A comunhão realiza mais plenamente o seu aspecto de sinal quando sob as duas espécies. Sob essa forma se manifesta mais perfeitamente o sinal do banquete eucarístico e se exprime de modo mais claro a vontade divina de realizar a nova e eterna Aliança no Sangue do Senhor, assim como a relação entre o banquete eucarístico e o banquete escatológico no Reino do Pai” (IGMR, nº 240).

Ritos Finais

1. Na Oração depois da Comunhão, peçamos a Deus com fervor que frutifique em nós o sacramento pascal e infundi em nossos corações a força da Eucaristia, alimento de salvação.

           
2. Que sejam privilegiados os avisos da comunidade que inspirem a missão dos cristãos no mundo, de anunciadores do Reino.

3. Dar a bênção final própria para o Tempo Pascal, conforme o Missal Romano, página 523. No final o povo responde com os dois “Aleluias”, no envio dos fiéis.

4. As palavras do rito de envio podem estar em consonância com o mistério celebrado: Não vos deixarei órfãos, o Espírito da verdade permanecerá sempre convosco. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.

10- CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nossa resposta só será autentica quando partir do encontro com o cotidiano. Afirma São João que “quem disser que ama a Deus que não vê e não ama seus irmãos que vê, é mentiroso”. É no encontro com os irmãos e irmãs que se renova nossa resposta a Deus.

Celebremos nossa Páscoa, na pureza e na verdade, aleluia, aleluia.

O objetivo da Igreja é ajudar os padres e as comunidades de nossa diocese e todas aquelas outras comunidades fora de nossa diocese que acessar nosso site celebrar melhor o mistério pascal de Cristo.

Um abraço fraterno a todos
            Pe. Benedito Mazeti
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